Sunday, June 14, 2026

Viagem Cósmica

Fecho os olhos
Obscura passagem
É a noite
Espaço sideral
Dimensão oculta
Não sei onde me leva
Depressa atravesso
O limiar da consciência
Estou ali
Diante de uma fogueira
Ardendo branda, constante
Penso, sem pensar
Não me interessa quem a fez
Transpira saber
Inaudível palestra
Prepara-me para algo
Nesta vida, para a próxima
Ou para outra versão de mim
Embrenhado o olhar no fogo
Desdobro-me em vários
À volta do mesmo fogo
Em cosmos diferentes
Quantos mais me torno
Mais me esqueço 
Do que não conheci
Dou por mim a viajar
Por entre terras habitadas apenas por mim
Tão estranhas que minha memória
Não se consegue formar

Planetas feitos de complexas equações
Seres criados de ciência omnisciente
Expandindo-se nas várias eras
Com cidades voadoras

Deslocando-me pelas galáxias à velocidade da luz
Colapsando a forja de estrelas
Alimentando-me de super-novas

Conglomerados de universos 
Convergem simultâneos vários de mim
Assimilo todos de mim

Volto à mesma fogueira
Ardendo branda, constante
Invocada por imaginação
Assumindo forma mais tolerável
Do que o rosto de Deus
Oculto em descrença
Com luz tenebrosa demais
Para ser indagado
Pelo olhar

Começo a sentir
A indeleve pressão atmosférica
A massa movendo-se para o centro do planeta
Os sentidos a captar estímulos do exterior
Abro os olhos
A realidade é imediatamente reconhecida
Sem qualquer conhecimento
De onde estive
Ou de quem me tornei

Saturday, June 13, 2026

Múrmurios entre ti e os deuses

Encontro-me com teu silêncio
É tudo o que sei de ti
A ambiguidade corta-me
Com trágicas arestas
De peças que uso
Em raras ocasiões
Para escapar de mim

Se apenas houvesse uma palavra tua
Podia agarrar-me a frágeis semânticas
Sem ser canibalizado pelo nevoeiro
A noite que avança e me cobre
Cobre, chumbo, uma montanha
De espectros, espelhos em pedaços
Virados de costas para mim
Evidenciam todos os segredos
Murmúrios entre ti e os deuses
Transmitidos para confins do universo
Não chegaria vivo até eles para os ouvir
E voltar para te contar o que perdi

Thursday, May 7, 2026

Where we dare not to enter

Our demons are eternal and invulnerable
You cannot fight them by the sword
They will multiply and materialize
Where the knowledge is scarce
And the dim is light
So we dare not to enter
Afraid that we find affinity
With those we find there

Only able to see them
Through the flash of the blade
I have not found yet any other way
To partake in their dissolution

Over severed heads
Dismembered members
Did I find
In the monsters 
I was slaying
Versions of me 
Long buried
By unnamed
Uncomfortable sensibilities

Wednesday, May 6, 2026

Diagnóstico do Terminal Receptor

Lendas sobre o inicio do mundo
E tudo aquilo que antecedia o seu fim
Foram implantadas cruas
De forma a não ser
Isoladas, questionadas e assimiladas
Uma memória incrustada 
Antes da palavra e do pensamento
Prévio à própria matéria precursora do self

E dessa totalitária incisão
Terá eclodido na génese do terminal receptor
Na fronteira (hostil) com o ambiente exógeno
Reproduzindo simulacros do fantasma primordial
Adulterando todas as amostras de origem alógena

Mecanismos evasivos 
Foram implementados
Em cada input
Para proteger a integridade do self
Do fantasma primordial

Tuesday, March 31, 2026

Alquímia do Fogo

Arida erosão
É a liturgia 
De orfãos planetas
Entregues
À letargia
De mortos deuses
Ao descaso do cosmos
Findando na demanda
Por uma ordem no caos
Irresolúvel epopeia

Eis que
Almejo transmutar
Na alquimia do fogo
Manusear na insensatez
Esculpir o fado
De homens de barro
Exercer dominio
Sobre instintos jorrando 
Do pântano da alma
Ávidos de dilacerar
O escárnio do tempo

Tuesday, March 3, 2026

A Estante de Livros

Deitado sobre a poltrona
Confrontava-se com uma imensidão
O olhar abstraia-se para alguns livros
Da estante em frente
Ponderava o que isso profetizava sobre ele
Sem pronunciar uma palavra
Fazia um esforço para ler na vertical
Outros exemplares mais discretos
Ao invés de se permitir se dobrar sobre si
Para investigar porque estava ali
Na lateral havia um abstrato
Via ali uma coluna vertebral
Voltava a cair em si
Sobre a seriedade do que projetava ali
O silêncio alongava-se
Quase esquecendo
Estava alguém sentado atrás de si
Acolhendo tudo que não era dito
Chegara ao fim
Tabulava essa voz
Atenta ao próximo cliente
Sem oportunidade de perceber
O que os livros anunciavam sobre si

Thursday, February 19, 2026

Sheker

Ao indagar-me 
Sobre as mais profundas
Causas do sofrimento
É inevitável debruçar-me 
Em um hipotético espaço mental
(Levando-me a acreditar)
Se encontrar dentro de mim
Configurado pela arquitetura da psique

Ciente dos moldes desse palco
Inteiramente subjeticamente subjugados
Das imorredouras emoções
Disfarçadas por questionável lógica

E para absoluta conveniência
Concentrado o cúlprito 
Em um único ser
Dotado de uma abstrata existência
Genéticamente modificado
Com todas as ânsias 
Infantes tendências
Embrenhadas em mim

Ou será, esse impostor
Na sombra endossado
Repositório de vários de mim
Argila e mentira
Incapaz de pronunciar
Da alma que não têm
Silenciado por desígnio 

Friday, February 6, 2026

Grandeza e Ruina

Seguro o mundo na mão
Estremece a terra solta
Debaixo de mim
Espero que não caia
Essa esfera contém a selva, o império
O peso do vazio vaporizado
Por entre dedos trémulos
Sintomas da desordem dentro de mim
Escapam ao jugo, a citadela, o reino
Inexorávelmente
Desenraiza-se o sonho
Arracando a terra aurea
Onde se semeiam
Arcaicos arquipélagos
Incrédulos, discordantes
Beligerantes entre si
Amálgama
De vozes dissonantes
Arde Roma ao fundo
Entregue a subterrados caprichos
Enquanto galgo para longe
Louco, admito
Para a floresta
Livre de grandeza e ruina

Thursday, February 5, 2026

Ties that bind

I take a glance inside
Stare at the hungry darkness
As if I was not afraid
To be swallowed whole
Countless rooms
Inhabited by several
Severed segments of me
Friendly semblants
Semblances of enemies
Dear foes, acquaintances
Unknown prisoners
Fallen gods, false deities
Familiar devils, fraternal demons
I lock them in their rooms
Were they to escape
I could realise
They are keeping me inside

Wednesday, January 21, 2026

Desire and Lack

All dark things
They travel together
And the dead
Symbiotic with the living
That foul place
Isolated by rigid defenses
Cast away and impregnated again
An eternal struggle
Desire and lack
Of an immaculate soul
And the unspeakable wishes
For the impaired to perish
In a vain attempt
To unbind from 
Our imposed agreement
Unwillingly signing of our youth