Thursday, June 25, 2026

Criados à sua imagem e semelhança

Nas camadas inferiores
Abaixo das inervações autónomas 
No abismo sináptico
Onde a luz não chega mais
Operador das engrenagens
Alimentadas por angústias reprimidas
Jaz uma invenção erguida
Nas tentativas de conjurar
A cartografia pelas inquietudes viscerais

Hesito em dar-lhe forma
São os olhos ígneos 
Arrastam-se, albergam feitiçaria
E a latitude entre as dimensões
O atravessam, concomitantes
Dão um esboço de sua arquitetura

No topo de sua cabeça
Conspiram exiguos deuses
Proclamam sentenças
Sobre desejos que os engendraram
Demasiado humanos
Criados à sua imagem e semelhança

Sunday, June 14, 2026

Viagem Cósmica

Fecho os olhos
Obscura passagem
É a noite
Espaço sideral
Dimensão oculta
Não sei onde me leva
Depressa atravesso
O limiar da consciência
Estou ali
Diante de uma fogueira
Ardendo branda, constante
Penso, sem pensar
Não me interessa quem a fez
Transpira saber
Inaudível palestra
Prepara-me para algo
Nesta vida, para a próxima
Ou para outra versão de mim
Embrenhado o olhar no fogo
Desdobro-me em vários
À volta do mesmo fogo
Em cosmos diferentes
Quantos mais me torno
Mais me esqueço 
Do que não conheci
Dou por mim a viajar
Por entre terras habitadas apenas por mim
Tão estranhas que minha memória
Não se consegue formar

Planetas feitos de complexas equações
Seres criados de ciência omnisciente
Expandindo-se nas várias eras
Com cidades voadoras

Deslocando-me pelas galáxias à velocidade da luz
Colapsando a forja de estrelas
Alimentando-me de super-novas

Conglomerados de universos 
Convergem simultâneos vários de mim
Assimilo todos de mim

Volto à mesma fogueira
Ardendo branda, constante
Invocada por imaginação
Assumindo forma mais tolerável
Do que o rosto de Deus
Oculto em descrença
Com luz tenebrosa demais
Para ser indagado
Pelo olhar

Começo a sentir
A indeleve pressão atmosférica
A massa movendo-se para o centro do planeta
Os sentidos a captar estímulos do exterior
Abro os olhos
A realidade é imediatamente reconhecida
Sem qualquer conhecimento
De onde estive
Ou de quem me tornei

Saturday, June 13, 2026

Múrmurios entre ti e os deuses

Encontro-me com teu silêncio
É tudo o que sei de ti
A ambiguidade corta-me
Com trágicas arestas
De peças que uso
Em raras ocasiões
Para escapar de mim

Se apenas houvesse uma palavra tua
Podia agarrar-me a frágeis semânticas
Sem ser canibalizado pelo nevoeiro
A noite que avança e me cobre
Cobre, chumbo, uma montanha
De espectros, espelhos em pedaços
Virados de costas para mim
Evidenciam todos os segredos
Murmúrios entre ti e os deuses
Transmitidos para confins do universo
Não chegaria vivo até eles para os ouvir
E voltar para te contar o que perdi