Sunday, March 15, 2015

Memento Mori

Um dia, que nem os mais impios dos deuses sabem
Thanatos virá a remar pacientemente pelo leito do rio
Na sua longa gondola, onde leva tantos
Com promessa de mostrar eternas margens de Letum
Ele saqueará almas de corpos abandonados
Alma é coisa etérea, negócio entre anjos e demónios
E de quem de entre os homens tem poder sobre os espíritos?

Temo derradeiro dia
Em que minha ânsia o chame antes do tempo
Alma prefira infindáveis paisagens
Desse rio com nascente em saudade
A tão doce efémera miragem
Que com meros suspiros se desfaz

Pensei No Que Sentia Não Senti Mais

Lógico gelo passa alí onde dói
Esfria afecto infectado
Esqueci-me ao de leve na ferida
Mal dei por mim, queimou fundo
Não senti mais dor
Nem hipotético prazer


Oh... Dolor!
'Dormecida cantiga

Volta! Afinal!
Faço pazes às tréguas

Velha amiga, d'índole erudita
Ingrato fui eu em não querer sentir
Fugi para braços d'apatia
Frígida rainha, não desce de seu trono
Nem espada empunha, d'olhar m'impala
Acabei preso em majestoso castelo
Refém de paredes perfeitas por minhas mãos
Débeis demais agora para derrubá-las

Pensei no que sentia
Não senti mais

Oh... Dolor!
Não sonho mais d'âncora amarrada
Apenas tempestuosa tribulação m'ampara

Sunday, March 8, 2015

Será que estou mesmo ali?

Ao andar pelas ruas despido de solitude
Seres incógnitos chocam com minha presença deambulante
Disferem adagas perceptivas, olvidando razões que não as deles
Encadeiam-me com claras evidências de que estou ali
Interpelo um estranho refletido num vidro qualquer
Falaram-me dele mas não sei quem é
Não o olho de frente, ele cega-me como o sol
No mesmo dia, numa janela perdida de gente
Vejo esse estranho a andar lá em baixo com olhar absorto
Como ver uma aparição fantasmagórica
Gélida presença se avulta na minha espinha
Ele é o espectro do homem que eu pensava ser

Se andava por aí outro ser corpóreo que não eu sem eu saber
Serei eu o espectro que anda por aí sem corpo
Sem corpo a realidade não me toca
Como posso saber então que estou ali?