Thursday, March 31, 2022

Lune Noir

Estranha hora
Na cegueira da noite
Para colher
Negras orquídeas

Em paisagens atentas
Banhadas pela luz
Da velha lua nova pairando
Em agoiro do retorno do recalcado


Ao cimo
Velada
Ínvia
Lívida
Infinita
Indefinida

Espia os homens
Loucos como as marés
Servem-se de isco ao desejo
Ingénuos, enlaçam-se ao engano
Avezados a vaidades e veleidades
Desdenham o inebriante enleio
Que puxa seu coração
Para o fascínio de estrelas distantes
Enamorados por seu brilho

Na ilusão de as poder alcançar
Algures perdidos
No frio cósmico
Sem suporte de vida
E nulo afeto
Morrem a meio
Afundados
No esquecimento

Thursday, March 17, 2022

Sono, Sonho, Sóbrio em Sentimento

Tão baixo
Assombrado
Estática da televisão
Olhos calados
Impregna-se um pesar

O espaço aglutinado entre os lençóis
Denúncia a ausência de outra fonte de calor
Debate-se com a escassez de um elo de ligação
Mas finge-se de morto
Como se nada disso importasse
Quem o visse ali, ninguém diria
Sangra por todos os poros

Ao longe
Imagina-se vida
De quem ignora a madrugada
Escondidos em deslizes de gato
Aparecem em sonhos como panteras
Fantasmas desta casa, de caras tapadas
Atrás de mim, deixo-os para trás
Corro desalmado atrás de vulto que foge
Entretanto me encontro comigo mesmo
Não me reconheço, odeio-o em segredo
Algo em nós, que nenhum quer que seja seu
Trocamos olhares e esgares
Fica no meio algo por dizer, algo por perceber
Sem declarações de guerra, nem oferendas de paz
Sem olhar para trás, nem virar as costas
Deixo-o ir
Ele vai
Tresmalhado

Espião, evade-se entre momentos de insónia
Extrapola-se pela barreira hematoencefálica
Erra pelo corpo, nó na garganta, tremores, arritmias
Prende a respiração, atira corpo em queda livre
Volta mais tarde em vigília baixa
Noutro corpo, noutra forma
Transmutado em qualquer medo
Grande demais para aparecer
Repetido em cada disfarce 
Mais diluído do que da última vez
Repelido, escapa novamente, sempre fugidio

Wednesday, March 16, 2022

Grandes Sinais no Céu

Neblina sépia 
Assalta os céus
Faz de sol lua
Asfixia estrelas
Engole lua
Recua marés
Convoca calamidade

Cega os homens
Reféns em alto mar
Sem astros 
Que digam
Para onde ir
Na noite mais escura
Trémulos os barcos
Medo nos corações

As trevas no fundo
Fazem um convite
Farão o impensável
Antes de aceitar

Tiram a pele
Arrancam a carne
Presa nos ossos
Despem qualquer vestígio
De humanidade
Ovelhas mansas na civilização
Lobos famintos em alto mar
As trevas do fundo
Pronunciam-se novamente
Indignos de voltar a terra
Lançam a vergonha
E tudo o que resta deles
Para onde jamais Deus possa ver

Sunday, March 13, 2022

Além do Homem

Antropomorfo, hominídeo, bípede
Coberto de mansa pele
Carne envolvente em densos ossos
Cartilagens, tendões, músculo sentimental
Olhos negros, de desesperança
Ingenuidade de si ou completa alienação
Ombros, braços e mãos
Para aguentar o peso do mundo
Quadris, pernas e pés
Tentam negar a gravidade centrípeta

Mas existe um espaço incógnito
Intocável pelas palavras
Algures dentro dele
Um habitat alóctone
Para um mastodonte 
Pouco confundível com humano
A carne sufocada por densos músculos
Grita um vermelho pulsante
De convoluta raiva e fúria crua
Animalesca ferida a céu aberto
Feroz olhar, rugido trovão, desfaz, aniquila
Aprisionado, noutra dimensão
Estremece todo o vazio com ecos vorazes
Irrompe o pensamento com febril insurgência
Preso em seu exílio de mil anos
Enquanto esse hóspede o contém

Onde Algo Possa Surgir

Aproximo-me com cuidado
Quero ver mais perto
No ponto de convexão
Sem parapeito
Nem arquitetura de enfeite
Escorrego por momentos
Em vertigem súbita
Deparo-me com a magnitude desse abismo
É espada de Dâmocles 
Que escorre pela garganta
Nessa hora de vil descoberta

Nunca imaginei
Estrutura humana
Ou por natural convenção
Tão medonha quanto esta
Esculpida de maciço pedaço de vazio
Um rochedo de nada
Negativo de existência
Profunda garganta aberta
Despejo pesado olhar para o fundo
Num eco reverberante de silêncio
Estremece ossos
Estilhaça dentes
Rebenta tímpanos

Imensidão de lugar inóspito
Esse dentro de mim
Engole fronteiras 
De ontem para o dia seguinte
São esses os alicerces
Onde julgo aqui me construir

Saturday, March 12, 2022

Estados Confusionais da Mente

Ao tomar posse de mim
Depois desse tempo
Em que me dividi
Duas vontades
Dois opostos
Sequestros de si
Desejos multiplicados
Por cada interdito
Mais um capricho
Que não impedi
Era claro para mim

Essa rede de interlocutores
Encontrados a cada nó dado
Para não perder o norte
Até um ideal de mim
Foi deliberada tentativa
De construir arcabouço
Para aguentar impacto
De ser só metade do que quis

Breve ideia de integração
Seria desarrazoada a crença
Reduzir múltiplas nuances do ser
Todas as urgências da alma
Em baldio desbravado
Complacente com essa incompletude
Por apenas um hemisfério à tangente

Cada Palavra, Cada Engano

Prostrado sobre o horizonte
Diluem-se por todo o corpo
Pensamentos parciais
Tomam forma mais sólida
Erguem-se morosos
Ganham consciência de si
Num eco ensurdecedor
Ornamentos por cada pesar
Emaranham-se a medos ampliados
Fazem-se gigantes na fusão
Entre omnipotência e queda livre.

Embalo-me em paisagens oníricas
Pela primeira vez tocadas
Revisitadas em sonhos esquecidos
Não fora sentir que já lá estive
Não fora sentir domínio
Desses pastos de torrentes de lava
Já não me enlouquecem assim.

Deixo-me seduzir
Por cada mentira
Solta por incrédulos lábios
Lambidos por chamas
Deste inferno sem ti

Friday, March 4, 2022

Einsamkeit

Silêncio de azul pálido
Despe-se no quarto
Com esguia mordida
De sabor metálico na língua

Sou transportado para memória onírica
Onde nunca estive, mas sempre senti
Labiríntica floresta, em noite de lua subreptícia
Desvalido numa brancura álgida

A ceifa de ventos glaciares saqueia
Qualquer centelha de febre que nega a falta
Num arquipélago cada vez mais insular
De ligações iónicas que perdem a referência de si
O corpo, ponte do dentro e fora
Perde toda a diplomacia para uma cortina de ferro
Negando a derradeira perda do que pode ser perda de si

Thursday, March 3, 2022

Ouroboros

Planeio desencontrar-me
Separar caminhos de mim mesmo
Largar o incómodo de fingir ser
Não saber em primeira mão de quem fujo
Perseguindo contornos de falta
Falhe a memória do que lá estava
Memória ligada à dor que fica em teu lugar
Mas não importa mais essa coisa
Inútil pensar, evito sentir, sem mais arder
Corro para fora de mim, contra a multidão
Perder-me de vista, dessa sina que é estar só
Tenho planos para depois
Talvez possa esconder-me nesse interposto
Não me notem, não me falem
Não vejam o que me falta
Esperem até ao fim
Com outras camadas
Mais decidido a ignorar
Quem fora eu, não ser muito diferente
Desse agora pintado de outras cores