Friday, September 5, 2014

Lá Em Baixo Algo Chama Por Mim

Habita um abismo dentro de mim
Não apenas maciços de zéfiro sinistro
Mas existe demoníaca respiração
Delicia maligna, intento ávido de aspirar
Não, minha vida, nem meu fim almejar
Sim, a volúpia de terror palpitante em meu olhar
Sôfrego fôlego antecipa-se, então se solta derradeiro suspiro

De tão súbito e mórbido capricho, desvio o olhar
Coração sacudido no pânico de pensar-se suspenso sobre as trevas enfim
Aquele insondável precipício puxa por mim
Perversidade esfumaça pelos céus imundos
Extingue luzes do firmamento e aparta Deus de mim
Alvoroço primitivo de profundas entranhas
Traz tentação inenarrável de Thanatos
Um magnetismo inebriante de pavor gelado me trespassa

Neguei-me negras ânsias tais
Fascínio ambíguo que traría ruína ou desolação
Quis abafar tão escancarada boca infernal
De tanta desarrazoada eloquência me delegava destruição
Fiz de tão íngreme precipício meus alicerces
Ergui inabaláveis pilares sobre esta nova residência
Onde impetuosa calamidade não morava
Madeira tão densa quanto a obscuridade que abaixo vituperava
Selava hermeticamente todo o pavimento que no mal flutuava
Sólida muralha calava zurrares de loucura do vasto vazio
Os céus são agora feitos de ouro
E vigas de cobre obscurecendo a noite eterna

Este Palácio é meu. Construi-o com implacável resiliência.
Sou Rei Soberano aqui e ninguém contesta minha Vontade
Imponência é exacerbante para uma alma tão pequena
Com peito tão cheio de orgulhosa altivez
Não há espaço para o singelo ar que agora me falta
Piso o lustre e ouço a madeira chiar
Aquele velho bolorento arrepiar do convulso estômago
Ecoa por entre emaranhadas entranhas
A febre inefável pronuncia-se novamente
Vertigem malevolente assola-me
Espessa iniquidade deixa boca amarga outra vez
Arrogância esmaga-me o peito com o peso da infinitude daquele poço maldito
A partir daí nunca olvidarei, caprichos desses são imorredouros
E desdenham essa vaidade da razão
Em inevitável leviano dia, falso piso se desmorona
Pé levantado enterra-se na surpresa fatal
O coração do peito é desterrado, foge um grito endiabrado
Olhos negros berram pálida loucura
Aquele arfar macabro deliciar-se-á d'horror de espanto sepulcral

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